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Crónica passada no Campo Pequeno

Por Margarida Vale.


Partilho uma crónica passada na minha infância e adolescência no Campo Pequeno. Espero que gostem.

A Maria Capaz

Quando era miúda não havia preconceitos. Éramos todos iguais, todos garotos despreocupados que brincavam uns com os outros. Nem éramos racistas, tão pouco. As cores serviam para distinguir os berlindes e os abafadores. Eu era craque na arte dos bilas e todos me temiam. Machismo era uma palavra totalmente desconhecida. O que havia era rapazes e raparigas e cada um deles com as suas habilidades, malandrices e espertezas.

Era o tempo da inocência, da pureza, aquele tempo em que tudo era possível, em que não existiam nem problemas nem entraves. A imaginação reinava a toda a hora e as parvoíces que se faziam eram incríveis. Como nos sabíamos divertir com o pouco que tínhamos.

Vivíamos na rua, um campo de jogos enorme e cheio de possibilidades a serem exploradas. Conhecíamo-nos pelo nome e ninguém olhava para a roupa que cada um usava. Por muito cuidado que tivéssemos, ela voltava para casa toda suja, cheia de terra e nódoas de relva e de rebuçados e gelados partilhados. Não havia diferenças, éramos todos iguais.

Como era simples a vida naqueles tempos. Uma carcaça dava para muitos e bebíamos da mesma garrafa de refrigerante. Não ficávamos doentes e a chuva nunca incomodava. Era mais um motivo de alegria. Saltávamos nas poças, nos charcos e as molhas eram tão refrescantes. Quem não se molhava era parvo.

Não havia ofensas e os palavrões, palavras novas descobertas entre o grupo, eram ditos à boca pequena, em casa e à boca cheia na rua. Nenhum era melhor que outro e assim devia ficar.

Sempre fui engenhosa na parvoíce. Lembrava-me de cada disparate que, agora, me arrepia e choca. Caçava moscas vivas e passava uma agulha com linha, pelo meio delas. Usava um colar de moscas moribundas, o que significava um troféu absolutamente ridículo.

Hoje olho para essa minha atitude e repugna-me ter feito tal coisa. Onde é que eu tinha a alma? Pobres moscas. Um dia morreriam mas não precisavam de ser torturadas. Não sabia o que era a inquisição ou a polícia política mas já praticava as suas técnicas odiosas e desumanas.

Outra brincadeira estúpida que tínhamos era cortar o rabo às lagartixas. Que giro era ver o rabo a estrebuchar no chão e a pobre lagartixa a desaparecer nas ervas. Eu sabia que a cauda voltava a nascer, porque passava férias no campo e via a natureza a sério, por isso não me preocupava. Aliás, os chamados sentimentos de culpa não existiam e escusávamos de saber o que era isso.

Crescer no meio de muitos rapazes aguça as técnicas e o engenho. Mesmo que houvesse mais raparigas, que não havia, eu era a única, eu era uma maria rapaz e desempenhava muito bem o meu papel. Não tinha medo de bichos, jogava à bola, corria, era a maior nos guelas e na carica. Tínhamos tanto!

As invenções também eram importantes. Não havia, fazia-se. Era preciso uma faca mas havia pregos. Fácil de resolver. Colocava o prego na linha do comboio e, quando este passava por cima, o prego ficava achatado e dava um útil faca. A engenharia não tinha segredos.

E o automobilismo? Campeões dos carrinhos de rolamentos. descíamos a rua, a uma velocidade doida, ao lado dos carros. os condutores olhavam para nós incrédulos. Que doidos! Mas divertíamo-nos imenso com aqueles sprints malucos e infantis.

Um dia aconteceu um acidente. Quando um descia a rua, um condutor, que tinha estacionado o carro, abriu a porta e apanhou-o em cheio. Resultado: queixo partido. Pontos e mais pontos e um penso enorme. O condutor em pânico no centro de enfermagem e ele, todo contente, com a medalha da corrida.

Claro que os carrinhos eram feitos por nós. As tábuas eram mendigadas ou aproveitadas da estância e os rolamentos apareciam, quase sempre milagrosamente, quando eram precisos. Depois era a linha de montagem, o trabalho de equipa, sem conhecer nem o Ford e muito menos o Taylor. Funcionava e a ajuda era sempre desinteressada.

As bicicletas eram partilhadas. Ricos e pobres era uma realidade que desconhecíamos. Para nós uns tinham e outros não. Qual o mal de partilhar? Ninguém estragava e, se fosse preciso, todos arranjavam o que se estragava. Grandes e fabulosos passeios que dávamos em conjunto.

O máximo era dar arrotos. Sim, arrotos, aquilo que agora sabemos que é falta de educação. Um deles conseguia dizer o alfabeto todo em arrotos. Era um herói para nós. Ríamos muito desta enorme alarvidade, duma proeza que é muito discutível.

À noite dormíamos que nem uns anjos. O corpo estava cansado da brincadeira, das correrias, do exercício que tinha sido feito. Eram noites santas, repousantes e as almofadas, por mais duras e desconchavadas que fossem, eram templos de calma e sossego.

Depois a vida começou a complicar-se, a tornar-se complexa e de difícil compreensão. Crescemos e a socialização ganhou em relação à despreocupação. Tínhamos regras a cumprir e a vida apresentava-se à nossa frente, com tom intimidatório e autoritário. Tínhamos de lhe obedecer.

Que saudades destes tempos de pura felicidade! O pouco era suficiente e chegava para todos. Cada um de nós seguiu o seu caminho, uns nos caminhos correctos e direitos, outros por trilhos complicados e outros já foram ceifados, nesta seara gigante. Nem chegaram a crescer ou não souberam. Sinto que me fazem falta, que um pouco de mim se evaporou e não chegou a fazer o efeito necessário.

Do simples passou-se ao complicado. Começou com um pequeno nó, a que se acrescentou outro e mais outro e agora, quando olho, vejo um novelo gigante, repleto de nós impossíveis de desatar.

Ficam as memórias, os tempos, as experiências, as realidades, a nossa construção enquanto seres. Soubemos aproveitar aquilo que tínhamos e foi muito bom. Porque é que já não somos assim? Pois é… crescemos.